Hoje estou na curva da idade. Durante a minha adolescência pensei que nunca chegaria aos 25. Era uma ideia muito forte, na altura, e quando curvei os 25 senti que alguma coisa estava errada na minha intuição, faculdade que ainda hoje me guia tanto no modo como levo os meus dias. [O facto de pensar que morreria entretanto deve ter-se ficado a dever às minhas referências pessoais de músicos, de poetas e outros tantos que se ficaram no tempo, ou senza tempo]. Chegada aos 28 esqueci-me da minha idade e chorei, no dia em que o Aragão me fez as contas, acertando nos 28, quando eu pensei estar ainda um ano antes. Aos 30 o meu pai profetizou que, dali a 10, estaria nos 40, e nesse dia voltei a chorar, nessa noite compulsivamente, como se tivesse ouvido um mau presságio vindo dos céus. A ideia da duração era a mesma ideia da perda da juventude, balizando-me e atirando-me para fora de mim, como se o meu corpo se perdesse em cada dia mais danificado. Cinco anos volvidos rapidamente e estava com 35 e com dois pequenos e inesperadíssimos filhos ao colo. Esses cinco anos foram os de uma viagem rápida, e estive mergulhada com intensidade dentro de uma forte ocupação fora de mim, esquecida e abnegada, devota a uma conjuntura de impulsos fortes e com trabalho a rodos, virada para desoras de tempos curtos. Outros cinco se passaram outrossim depressa, e eis que chego à idade tabu. À quantidade redonda dos tempos, e 10 anos volvidos sobre o negrume da profecia do meu pai. Mas pela primeira vez em tanto tempo não me sinto mal por fazer anos, pelo contrário. Sinto-me bem. Talvez por saber que me restam poucos dias para continuar com algum frescor, e por isso vivo com outra, ou com uma novíssima intensidade. O tempo encurta-se, esvai-se, perde-se entre mãos que nem sempre estão fechadas. O tempo migra para outros indivíduos que crescem, e eu fico agora sem ele, para mim, como pela extensão que tinham me pareciam mais duros de passar. Estou na curva do meu tempo e olho para dentro de mim e ainda vejo fantasia, e ainda vejo espanto, e ainda vejo os lumes de sempre, e ainda carrego ideias e projectos e paixões de arrebatar, e os meus segredos insondáveis, inconfessáveis, tal como quando era ainda jovem, porque é tudo igual, e porque há tantas coisas que na minha vida não passam, mas que ficam agarradas a mim, como uma pele, e ainda bem... E hoje, pela manhã, quando me encarei ao espelho pardo pelo vapor dos banhos, vi-me pela primeira vez com quietude, e foi ali que intui que não tenho outra alternativa senão deixar-me envelhecer sem tragédias. Encarar de frente o que o tempo me foi vincando, e o que ele fez de transfigurações na minha carne, faz parte de todo um processo de reconciliação comigo, creio-o agora, como acontece com toda a gente que passa a esquina dos dias, como eu. Dir-me-ás que faço balanços, incomummente, porque os não faço nunca, e eu te responderei que deve ser da idade, e porque reconheço agora que há padrões verdadeiros que nos moldam. E um deles, asseguro-te sem medo do lugar-comum em que caio, é que aos 40 parece que queremos agarrar todos os dias, numa outra adolescência de fervores, mas desta vez porque sabemos que a elasticidade dos dias se perdeu para sempre...
Sou aquilo que sou, e sou aquilo que sempre fui, e sou aquilo que sou, porque fui.
Carla Alexandra Gonçalves
quarta-feira, março 05, 2008
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
galáxia do triângulo
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
derivação de um pensamento de Popper
... enquanto estivermos vivos podemos sempre tentar de novo ...
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derivação de um pensamento
terça-feira, fevereiro 12, 2008
tributo a Karl Popper

«O grande movimento de libertação que teve início no Renascimento e que conduziu, através das muitas vicissitudes da Reforma e das guerras religiosas e revolucionárias, às sociedades livres em que os povos de expressão inglesa têm hoje o privilégio de viver, foi um movimento todo ele inspirado por um inigualável optimismo epistemológico, por uma visão extremamente optimista do poder humano de discernir a verdade e adquirir conhecimento.
No cerne desta nova e optimista perspectiva acerca da possibilidade do conhecimento reside a doutrina de que a verdade é manifesta. De acordo com ela, é possível que a verdade esteja velada. Pode, todavia, desvelar-se. E se não se desvelar por si própria, poderá ser desvelada por nós. Não será, talvez, fácil remover o véu. Mas assim que a verdade nua surgir revelada perante os olhos, nós teremos o poder de a ver, de a distinguir do que é falso, e de saber que ela é verdade.
O nascimento da ciência e da tecnologia modernas foi inspirado por esta epistemologia optimista, cujos principais representantes foram Bacon e Descartes. Ensinaram eles que homem nenhum necessita de recorrer à autoridade para saber o que é verdadeiro, visto cada um transportar em si as fontes do conhecimento ��� seja o poder de percepção dos seus sentidos, que pode aplicar à cuidadosa observação da Natureza, seja no seu poder de intuição intelectual, que pode utilizar para distinguir a verdade do erro, recusando-se a aceitar qualquer ideia que não tenha sido clara e distintamente percebida pelo intelecto.
O homem pode conhecer: por isso pode ser livre. É esta a fórmula que explica a conexão entre o optimismo epistemológico e as ideias do liberalismo.
Esta conexão tem por contraponto a conexão oposta. A descrença no poder da razão humana, no poder humano de discernir a verdade, está quase invariavelmente ligada à desconfiança no próprio homem. Desta forma, o pessimismo epistemológico surge historicamente associado a uma doutrina da depravação humana, e tende a conduzir à exigência da instituição de tradições fortes, bem como à implementação de uma autoridade poderosa que salve o homem da sua loucura e perversidade.
[...] Mas como podemos nós cair em erro se a verdade se manifesta? A resposta é: pela nossa pecaminosa recusa em ver essa verdade manifesta; ou então, porque as nossas mentes albergam preconceitos inculcados pela educação e pela tradição, ou por outras influências maléficas que terão pervertido os nossos originalmente puros e inocentes espíritos. A ignorância pode ser obra de poderes que conspiram para nos manter ignorantes, para envenenar as nossas mentes, enchendo-as de falsidades, e para cegar os nossos olhos, de maneira a não poderem ver a verdade manifesta. Tais preconceitos e tais poderes serão, então, fontes de ignorância.».
Mas, na realidade, e para Popper, a verdade não é manifesta. Esta falsa epistemologia (a positiva e de tipo cartesiano, e a negativa) trouxe, embora, grandes progressos intelectuais, mas também causou inúmeros episódios trágicos, no que concerne à história da humanidade, porque ela esteve na base do fanatismo.
A nossa intuição intelectual engana-nos, de facto, e o nosso intelecto não é uma fonte do conhecimento (somente porque Deus é uma fonte de conhecimento).
No caminho do conhecimento está aquilo a que vulgarmente se chama um método. Para alcançar a verdade temos de observar criticamente tudo quanto nos rodeia, temos de conjecturar heuristicamente sobre o que observamos, temos de ultrapassar os esquemas preconcebidos, temos de nos colocar num lugar de dúvida, temos de ajuizar criticamente, temos de estar cônscios de que, a cada passo que damos, devemos dar outros mais, temos de experimentar, temos de verificar, temos de refutar, temos de criticar sempre aquilo que nos é (ou foi) dado como certo, mesmo as nossas próprias teorias e mesmo as nossas próprias suposiões, temos de conseguir alterar o que foi estabelecido antes de nós (ou modificar o conhecimento anterior), temos de querer alcançar o conhecimento (mesmo sabendo que nunca alcançaremos a verdade).
Numa justa conclusão, uso as palavras de Popper quando escreveu, baseando-se nas ideias de Kant, que:
«Será uma decisão crética da nossa parte obedecermos ou não a uma ordem, ou submeter-nos ou não a uma autoridade.»
Quanto mais conhecemos, mais certos nos tornamos da nossa imensa ignorância.
(1961)
Cf. Karl Popper, «Acerca das fontes do conhecimento e da ignorância», Conjecturas e Refutações, o desenvolvimento do conhecimento cientéfico, trad. Benedita Bettencourt, Livraria Almedina, Coimbra, 2003, pp. 20-21, 22-23 e 47.
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
visceral
Frida Kahlo, As duas Fridas, 1939

Paula Rego, Broken Promisses, 2006
Quando uma mulher pinta,
fá-lo com as entranhas
Quando uma mulher chora,
fá-lo com as entranhas
Quando uma mulher cala,
fá-lo fechando as suas entranhas
As entranhas de uma mulher são fascinantes,
porque elas dizem coisas,
porque elas choram,
elas suportam
e,
como as dos homens,
elas escorregam.
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
da inércia

Hieronymus Bosch, O barco dos loucos,
Óleo sobre madeira, 1490-1500,
museu do louvre, paris
Quem deliberadamente provoca cegueiras é bemquisto no presente, porque passou a viver por nós, e porque, pensa o povo assim desafogado, fica lá com as nossas estafas. O sistema passou, deliberadamente, a viver por nós, a escolher por nós, a pensar por nós, a exigir por (e de) nós, e a cegar-nos, objectivamente, num culto de dirigismo provinciano, mas eficaz. Assim se constrói o derrube do Iluminismo, assim se constrói um sistema déspota e inumano, assim se derruba a liberdade de pensamento e a criatividade na acção dos sujeitos que deviam, eles mesmos, viver cada uma das suas curtas vidas. O que me espanta é verificar que um sistema corrupto, autoritário, proibitivo, caciquista, ainda que acéfalo, mas integrador, não gera confrontos, mas apenas algumas amofinações íntimas e caseiras. Os sujeitos, assim devidamente integrados neste sistema característico, passam a experimentar o enfado, e o caminho resolve-se por sucessivas inércias que, para mim, são verdadeiramente pungentes. Este sistema de que falo é perfeitamente globalizador, fazendo uso de uma maquinaria incipiente, mas altamente eficaz para enformar os homens. As estruturas deste sistema, ainda que desorganizado e amador, porque sujeito a uma liderança pouco inteligente, vão tomando conta de todas as acções dos indivíduos a elas sujeitas, e que assim se livram das suas peles, todas diferentes, para envestirem a nova roupa do padronamento ordeiro e benovolente.
As pernas das sociedades começam a partir-se lentamente, através de uma estrutura educativa programada e limitativa, porque o pensamento, o conhecimento e a educação podem, ou devem, consubstanciar verdadeiros obstáculos ao crescimento dos sistemas prepotentes. Assim se foi e vai construindo este país, educado pelas televisões de má fortuna que fazem viver o povo as outras vidas, que não a dele, que é mísera e cinzenta. Assim se vai construindo este país, limitando devagarinho o acesso às ciências sociais e humanas desde a mais tenra idade, porque o livre pensamento crético e adulto não se conforma com dirigismos.
Assim se constrói este país, com comandos de mau gosto mas eficazes, porque já se educou suficientemente o nosso povo no sentido da mais sã e pueril convivência com o inestético e com o vil, com o fácil e com o vulgar. Assim se derrama um sangue cru, mesmo quando a situação gera conflitos internos, mas irresolúveis por falta de organização. O povo arde agora em febre, mas arderá até morrer, sem protecção. O povo arde na fogueira da miséria, mas não sabe como fazer para virar o vento. O povo enferma com os maus exemplos dos que lhe estão acima, e por isso não tem olhos para a entender todo um sistema de valores que já há muito se perdeu.
Quem teve a sorte de nascer entre o século XX e a presente centúria carrega um fardo pesado, ou fardo nenhum, morrendo depois em vão. E para que não se morra em vão, é preciso viver com amor e com ódio, e com ganas de pensar e de sentir... mas creio que já é tarde demais. É que mesmo quando aqueles sistemas, como o nosso, ainda que mal estruturados, passam desavergonhadamente de uma corrupção em esfera própria, para baixar à extorsão crua dos sujeitos que supostamente protegem, ainda assim não há vislumbres de repúdios. É preocupante e deprimente anotar que os sujeitos assim governados assistem incólumes ao desenrolar de uma acção programada, permanecendo na realidade dos dias numa inexorável inércia.
É assombroso como de facto a história nos ensina tanto sobre a existência e sobre os homens. No desenrodilhar destes tantos anos e dias, por vezes penso que melhor será mesmo deixar-me enformar pelo sistema, ou deixar-me formatar com o tão-pouco, o tão-rude, o tão-fácil que nos vem de cima. É que assim, se não tiver mesmo de pensar, porque os sistemas o farão por mim, passarei a um estado quase impoluto, vivendo meus dias candidamente e sem esforços, para além dos que dedico, porque sim, ao meu ganha-pão, para depois morrer em vão, coisa que deve ser melhor do que experimentar a dor.
Tenho agora, no meu caminho, e ao fundo desta recta que se esvai, trás grandes possibilidades. Ou pronuncio o nome do meu país com pudor, dissimuladamente, ou num sussurro retirado e decoroso, ou fujo da realidade alienando-me ainda mais, ou abro de vez o meu grito aflito para tentar parar o tempo e rebobinar este filme que terá, para mim, de refazer-se inteiro.
É tempo, justamente, de rebobinar este filme e de relembrar que devemos ousar pensar por nós próprios. É tempo de rebobinar o filme e pensar na liberdade. É tempo de rebobinar o filme e viver a solidariedade, a fraternidade, a igualdade, a criatividade, o livre pensamento, a salubridade, a fantasia, a humanidade... É tempo de rebobinar o filme e repensar o silêncio, a solidão imposta, o medo e a alienação, porque é tempo de revolta e de renúncia. É tempo de repensar a vida e é tempo, acima de tudo, de fazer repensar a vida aos que vivem na insensatez do, e no sistema.
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duas palavras de quase fim
terça-feira, janeiro 29, 2008
quinta-feira, janeiro 24, 2008
sem título

Porque mesmo não querendo continuamos sós
no adentro das nossas vidas
no adentro das ideias
no adentro de um estômago
que dói
e continuaremos sós
no adentro de nós mesmos
ainda que possamos pensar que,
mas só no adentro das ideias,
nos envolvemos prenhemente
com o mundo
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duas palavras de quase fim
sexta-feira, janeiro 18, 2008
quinta-feira, janeiro 17, 2008
segunda-feira, janeiro 14, 2008
Yeah
BREAK iN YOUR HEAD. SpOk23
Quando descobri este dj bretão chamado Spok23 fiquei algum tempo sem pensar noutra coisa, por isso decidi partilhar o que há de partilhável ...
Da TriBe Liveset By SpOk23
Quando descobri este dj bretão chamado Spok23 fiquei algum tempo sem pensar noutra coisa, por isso decidi partilhar o que há de partilhável ...
Da TriBe Liveset By SpOk23
terça-feira, janeiro 08, 2008
segunda-feira, janeiro 07, 2008
a Nosso Senhor

Se eu, com a minha lâmina de veludo, tentasse arrancar-te esses teus olhos, para com eles conceber meu pendente de peito, sempre presente, chegaria ao céu, ao pé de ti, oh altíssimo, e contigo construiria um caminho desavesso, mas seria esse o caminho que contigo, sem teus olhos, porque já eles foram derramados no pendente do meu peito, percorreria aos brados, feitos com a minha voz de veludo, tentando cantar os sons que de minha boca não sairiam, porque a minha voz e a tua, que são uma voz junta, gritariam num mesmo silvo de céus ardentes que só os anjos, com seus cabelos brandos, apreenderiam. Se eu, com a minha lâmina de veludo, tentasse remoldar-me na vida, para com ela, toda nova e toda sã, conceber-me em pendentes de peito, sempre presentes, chegaria ao céu, ao teu largo, altíssimo, e contigo conviveria sem voz, porque as orações que proferiríamos, de tão iguais, se confundiriam. E essa minha mão de veludo te cercaria, e o mundo inteiro se verteria em nada, porque nele jamais me perderia.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
porque de facto não aguento
decidi, apesar de ter jurado que não mais escreveria, ou sequer pensaria sobre este assunto que é, para mim, algo irritante, copiar, do documento enviado pelo Ministério da Saúde (consultável em www.dgs.pt, creio eu) referente à lei Anti Tabaco (titulado «Perguntas e respostas acerca da Lei 37/2007, de 14 de Agosto»), o elenco dos lugares onde não é permitido fumar, tais como alguns onde, em casos previstos, pode eventualmente fumar-se.
Recebi essa documentação no ano passado mas nem abri o link, empurrando o problema com a barriga. Mas agora decidi abrir o referido doc., talvez para compreender algumas questões que ainda não tinha visto explicadas ou, quem sabe, para me focar na realidade. Durante a leitura, arregalei tanto os olhos que não aguentei, resolvendo-me então a partilhar parte do interessante texto:
É então proibido fumar:
«1. Nos locais onde estejam instalados órgãos de soberania, serviços e organismos da administração pública e pessoas colectivas públicas;
2. Nos locais de trabalho;»
Nota rápida aos pontos 1. e 2.:
então em que ficamos?
onde é que nos é permitido trabalhar?
«3. Nos locais de atendimento directo ao público;
4. Nos estabelecimentos onde sejam prestados cuidados de saúde, e outros similares, laboratórios, farmácias e locais onde se dispensem medicamentos não sujeitos a receita médica;
5. Nos lares e outras instituições que acolham pessoas idosas ou com deficiência ou incapacidade;»
Nota rápida aos pontos 3., 4. e 5.:
nem a propósito!
«6. Nos locais destinados a menores de 18 anos;
7. Nos estabelecimentos de ensino, independentemente da idade dos alunos ;
8. Nos centros de formação profissional;
9. Nos museus, colecções visitáveis bibliotecas, salas de conferência, de leitura;
10. Nas salas e recintos de espectáculos e diversão;
11. Nas zonas fechadas das instalações desportivas;
12. Nos recintos das feiras e exposições;
13. Nos conjuntos e grandes superfícies comerciais e nos estabelecimentos comerciais de venda ao público;
14. Nos estabelecimentos hoteleiros;
15. Nos estabelecimentos de restauração, de bebidas ou de dança;
16. Nas cantinas, nos refeitórios e nos bares;
17. Nas áreas de serviço, postos de abastecimento de combustível;»
Nota rápida ao ponto 17.:
ainda bem que não podemos fumar cigarros nas áreas de serviço, porque ainda assim, é-nos permitido beber bebidas alcoólicas sem qualquer limitação.... (sem comentários).
«18. Nos aeroportos, nas estações ferroviárias, nas estações rodoviárias de passageiros e nas gares marítimas e fluviais;
19. Nas instalações de metropolitano;
20. Nos parques de estacionamento cobertos;
21. Nos elevadores, ascensores e similares;
22. Nas cabines telefónicas fechadas;
23. Nos recintos fechados das redes de levantamento automático de dinheiro;
24. Em qualquer outro lugar, onde por determinação da gerência, ou de outra qualquer legislação aplicável, designadamente em matéria de prevenção de riscos ocupacionais, se proíba fumar;
25. É ainda proibido fumar nos veículos afectos aos transportes públicos urbanos, suburbanos e interurbanos de passageiros, bem como nos transportes rodoviários, ferroviários, aéreos, marítimos e fluviais, nos serviços expressos, turísticos e de aluguer, nos táxis, ambulâncias, veículos de transporte de doentes e teleféricos.»
Bom, era de evitar tanta tinta para dizer-se apenas que é proibido fumar em toda a parte tirando a sua casa e tirando, muito provavelmente, as sentinas (ou as retretes públicas), que não se arrolam neste documento.
Nos lugares onde é permitido fumar-se relê-se:
«3. Pode ser permitido fumar em áreas expressamente previstas para o efeito:
3.1. Nos locais onde estejam instalados órgãos de soberania, serviços e organismos da administração pública e pessoas colectivas públicas;
3.2. Nos locais de trabalho;»
.... é de rir.
Recebi essa documentação no ano passado mas nem abri o link, empurrando o problema com a barriga. Mas agora decidi abrir o referido doc., talvez para compreender algumas questões que ainda não tinha visto explicadas ou, quem sabe, para me focar na realidade. Durante a leitura, arregalei tanto os olhos que não aguentei, resolvendo-me então a partilhar parte do interessante texto:
É então proibido fumar:
«1. Nos locais onde estejam instalados órgãos de soberania, serviços e organismos da administração pública e pessoas colectivas públicas;
2. Nos locais de trabalho;»
Nota rápida aos pontos 1. e 2.:
então em que ficamos?
onde é que nos é permitido trabalhar?
«3. Nos locais de atendimento directo ao público;
4. Nos estabelecimentos onde sejam prestados cuidados de saúde, e outros similares, laboratórios, farmácias e locais onde se dispensem medicamentos não sujeitos a receita médica;
5. Nos lares e outras instituições que acolham pessoas idosas ou com deficiência ou incapacidade;»
Nota rápida aos pontos 3., 4. e 5.:
nem a propósito!
«6. Nos locais destinados a menores de 18 anos;
7. Nos estabelecimentos de ensino, independentemente da idade dos alunos ;
8. Nos centros de formação profissional;
9. Nos museus, colecções visitáveis bibliotecas, salas de conferência, de leitura;
10. Nas salas e recintos de espectáculos e diversão;
11. Nas zonas fechadas das instalações desportivas;
12. Nos recintos das feiras e exposições;
13. Nos conjuntos e grandes superfícies comerciais e nos estabelecimentos comerciais de venda ao público;
14. Nos estabelecimentos hoteleiros;
15. Nos estabelecimentos de restauração, de bebidas ou de dança;
16. Nas cantinas, nos refeitórios e nos bares;
17. Nas áreas de serviço, postos de abastecimento de combustível;»
Nota rápida ao ponto 17.:
ainda bem que não podemos fumar cigarros nas áreas de serviço, porque ainda assim, é-nos permitido beber bebidas alcoólicas sem qualquer limitação.... (sem comentários).
«18. Nos aeroportos, nas estações ferroviárias, nas estações rodoviárias de passageiros e nas gares marítimas e fluviais;
19. Nas instalações de metropolitano;
20. Nos parques de estacionamento cobertos;
21. Nos elevadores, ascensores e similares;
22. Nas cabines telefónicas fechadas;
23. Nos recintos fechados das redes de levantamento automático de dinheiro;
24. Em qualquer outro lugar, onde por determinação da gerência, ou de outra qualquer legislação aplicável, designadamente em matéria de prevenção de riscos ocupacionais, se proíba fumar;
25. É ainda proibido fumar nos veículos afectos aos transportes públicos urbanos, suburbanos e interurbanos de passageiros, bem como nos transportes rodoviários, ferroviários, aéreos, marítimos e fluviais, nos serviços expressos, turísticos e de aluguer, nos táxis, ambulâncias, veículos de transporte de doentes e teleféricos.»
Bom, era de evitar tanta tinta para dizer-se apenas que é proibido fumar em toda a parte tirando a sua casa e tirando, muito provavelmente, as sentinas (ou as retretes públicas), que não se arrolam neste documento.
Nos lugares onde é permitido fumar-se relê-se:
«3. Pode ser permitido fumar em áreas expressamente previstas para o efeito:
3.1. Nos locais onde estejam instalados órgãos de soberania, serviços e organismos da administração pública e pessoas colectivas públicas;
3.2. Nos locais de trabalho;»
.... é de rir.
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quarta-feira, janeiro 02, 2008
Sobre o estado da saúde

Ainda não há muito tempo escrevi sobre Herbert Marcuse e sobre as suas ideias magníficas no que respeita ao Estado do Bem-Estar. Na sua senda, e esta é a primeira e última vez que escrevo sobre este assunto, devo expelir o que sinto sobre a Lei Anti Tabaco e seus sequazes.
De facto, fumar faz mal. Não há volta a dar quanto a esse assunto. Quem começou a fumar, seja lá quando, ou como isso aconteceu, fez mal. Fez mal porque se enganou, pensando que fumaria quando bem lhe aprouvesse e que fumar não comandaria a sua vida. Enganámo-nos.
A nicotina vicia mais do que a cocaína, e quem cai nos seus engodos, fica preso. Eu fumo desde os 16 anos. Fiz mal. Parei depois de fumar, aquando das gravidezes e suas implicações ulteriores, porque quis e porque tinha um motivo veraz para largar o cigarro. Foi um processo quase automático, porque o stress que me provocava a espera pelo tempo para fumar os cinco cigarros admissíveis parecia não passar. Três anos depois de ter parado, fui recomeçando, pensando novamente que não ficaria agarrada ao hábito, mas fiquei. Acho que, no fundo, recomecei a fumar porque sou fumadora, dependente de químicos. Entendo-me correctamente como uma nicotinómana. A partir de então comecei a trabalhar melhor, comecei a melhorar o humor, e rapidamente voltei ao que era, aquando dos 20 cigarros fumados diariamente.
O Estado entende que deve melhorar a saúde dos seus cidadãos. E entende bem, enfim, se quisermos responsabilizar o Estado por tudo, se formos de facto os filhos do Estado, e se o Estado tiver poderes para viver a vida dos seus filhos como gente menor e à sua guarda. Sim, o mesmo Estado que cuida da desvalorização social, esse mesmo Estado que vira as costas à outra saúde, aos problemas reais relacionados com a promoção da saúde (pública) dos seus filhos: os hospitais, os centros de saúde, as instituiçõs que deveriam cuidar dos que não têm quem lhes trate da saúde. Tenho péssimas memórias dos hospitais a que tive de ir, ou onde estiveram os meus: os médicos são, salvo devidas excepções, de bradar aos céus, porque vestiram a bata de um funcionalismo público de terceira categoria em termos de decência profissional (o encolher de ombros devido à hora, ou ao dia impróprio, a incúria estarrecedora, a lástima no que concerne à sua própria educação... É tudo tão rudimentar que aflige pensar nisso mas, o pior, é que isso implica com a vida alheia, alheia à deles, embora); dos senhores enfermeiros há de quase tudo, desde que a vaidade assim os incentive... enfim... Numa palavra, quando alguém adoece, deus nos proteja, o melhor é ficar-se em casa, pois que a casa pode ser um lugar mais salubre do que um hospital. Ou então, caso tenhamos mesmo de abandonar o lar, porque há a necessidade de uma operação, por exemplo, devemos seguir a ideia do médico que nos diz: operaria aqui, mas o melhor é ser operada na clínica onde trabalho, porque há menos esperas e o ambiente é melhor.
Muito bem. Pensando que fumando posso incorrer numa série interminável de danos para a minha, e para a saúde dos demais, e pensado que posso até vir a necessitar de recorrer a um hospital por motivos tão fúteis como o fumo, vou optar por melhorar as minhas, e as outras condições de vida. A par do abandono do cigarro, abandonarei também outros hábitos pouco higiénicos, como por exemplo, as comidas fortes, os refogados puxados, os fritos, os doces e os salgados, as bebidas açucaradas, gaseificadas, alcoólicas, e vou optar por macrobióticos e por uma cozinha mais rica em àguas, em fibras e em algas. A par dessa higienização alimentar, cuidarei em fazer desporto de ar livre, enchendo meus pulmões, outrora negros, do ar cristalino que em Portugal se respira... (!, certo?) Vai ser bom.
E com o andar da vida, conseguirei, enfim, chegar à década dos oitenta, ou dos noventa e tais anos. Nessa altura, se não for antes, certamente padecerei de outros males, dos males dos que não fumam, mas que vão morrendo, como os demais. Nessa altura, se tudo correr pelo melhor, poderei estar entrevada, imobilizada, com dores, ou toldada pela demência, perfeitamente longe da vida que levava, mesmo sem fumar, sem comer mal, e praticando de tudo o que de bem traz a vida, porque as minhas células, inevitavelmente, pararam de realizar a sua reprodução natural, enfim... tudo pode acontecer a uma velha que não fuma, por isso, certamente, terá chegado a velha. Bom!... nesses dias que virão, necessitarei de ajuda para tudo, se não puder que alguém me injecte o tal líquido mortificante, que é contra natura. Os meus filhos, oh, os meus filhos, quero-os longe de mim. Quero-os a tratar dos filhos deles, se for o caso, ou das suas vidas jovens, que dão o trabalho que dão. Não quero os meus filhos comigo, porque estarei velha, e velha, se estiver zombi, quero-os fora de mim, para me lembrarem nova.
O que eu quero, ou melhor, o que eu exijo, é que o Estado do Bem Estar me dê o apoio que me prometera quando me delongou os anos de vida. Ele sim, tem de dar-me um lugar digno, limpo e arejado, cheio dos velhos da minha idade, um lugar onde possamos sentir-nos bem, porque vivemos anos demais. Nesse dia que virá, oh que magnífico, poderei acabar os meus tempos sossegada, a cargo do Estado que me dara um quarto com casa de banho preparada e limpa, com uma vista ampla, com atendimento personalizado, com música, com filmes, com biblioteca, com flores e ar puro para que eu possa viver até ao fim, no quarto branco que o Estado me prometera. Certamente que o Estado não vai entrar naquela mísera conversa do: oh, minha senhora, veja a lista de espera imensa neste lar comparticipado, tem de morrer primeiro; minha senhora, é com alegria que lhe escrevemos, informando que ha agora uma vaga, naquela instituição onde morreram duas idosas porque a gerência tinha maus figados com quem teimava em em portar-se mal; minha senhora, porque o lar onde esteve inscrita (pagando) durante anos, foi fechado por falta de condições de higiene, terá de aguentar por onde lhe for possível; minha senhora, tem de deixar a sua pensão, e um terço do salário dos seus filhos, se quiser comer todos os dias na casa de repouso que lhe oferecemos... e
Ainda Bem, que o Estado do Bem Estar pensa em tudo, e que neste admirável mundo saudável, podemos nunca adoecer (valendo-nos poupar-nos de uma infecção hospitalar, ou de um pontapé de um bêbado enquanto esperamos consulta), e podemos morrer num lugar de encantamento, entrevados, mas felizes.
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