
Hieronymus Bosch,
O barco dos loucos,
Óleo sobre madeira, 1490-1500,
museu do louvre, paris
Quem deliberadamente provoca cegueiras é bemquisto no presente, porque passou a viver por nós, e porque, pensa o povo assim desafogado, fica lá com as nossas estafas. O sistema passou, deliberadamente, a viver por nós, a escolher por nós, a pensar por nós, a exigir por (e de) nós, e a cegar-nos, objectivamente, num culto de dirigismo provinciano, mas eficaz. Assim se constrói o derrube do Iluminismo, assim se constrói um sistema déspota e inumano, assim se derruba a liberdade de pensamento e a criatividade na acção dos sujeitos que deviam, eles mesmos, viver cada uma das suas curtas vidas. O que me espanta é verificar que um sistema corrupto, autoritário, proibitivo, caciquista, ainda que acéfalo, mas integrador, não gera confrontos, mas apenas algumas amofinações íntimas e caseiras. Os sujeitos, assim devidamente integrados neste sistema característico, passam a experimentar o enfado, e o caminho resolve-se por sucessivas inércias que, para mim, são verdadeiramente pungentes. Este sistema de que falo é perfeitamente globalizador, fazendo uso de uma maquinaria incipiente, mas altamente eficaz para enformar os homens. As estruturas deste sistema, ainda que desorganizado e amador, porque sujeito a uma liderança pouco inteligente, vão tomando conta de todas as acções dos indivíduos a elas sujeitas, e que assim se livram das suas peles, todas diferentes, para envestirem a nova roupa do padronamento ordeiro e benovolente.
As pernas das sociedades começam a partir-se lentamente, através de uma estrutura educativa programada e limitativa, porque o pensamento, o conhecimento e a educação podem, ou devem, consubstanciar verdadeiros obstáculos ao crescimento dos sistemas prepotentes. Assim se foi e vai construindo este país, educado pelas televisões de má fortuna que fazem viver o povo as outras vidas, que não a dele, que é mísera e cinzenta. Assim se vai construindo este país, limitando devagarinho o acesso às ciências sociais e humanas desde a mais tenra idade, porque o livre pensamento crético e adulto não se conforma com dirigismos.
Assim se constrói este país, com comandos de mau gosto mas eficazes, porque já se educou suficientemente o nosso povo no sentido da mais sã e pueril convivência com o inestético e com o vil, com o fácil e com o vulgar. Assim se derrama um sangue cru, mesmo quando a situação gera conflitos internos, mas irresolúveis por falta de organização. O povo arde agora em febre, mas arderá até morrer, sem protecção. O povo arde na fogueira da miséria, mas não sabe como fazer para virar o vento. O povo enferma com os maus exemplos dos que lhe estão acima, e por isso não tem olhos para a entender todo um sistema de valores que já há muito se perdeu.
Quem teve a
sorte de nascer entre o século XX e a presente centúria carrega um fardo pesado, ou fardo nenhum, morrendo depois em vão. E para que não se morra em vão, é preciso viver com amor e com ódio, e com ganas de pensar e de sentir... mas creio que já é tarde demais. É que mesmo quando aqueles sistemas, como o nosso, ainda que mal estruturados, passam desavergonhadamente de uma corrupção em esfera própria, para baixar à extorsão crua dos sujeitos que supostamente protegem, ainda assim não há vislumbres de repúdios. É preocupante e deprimente anotar que os sujeitos assim governados assistem incólumes ao desenrolar de uma acção programada, permanecendo na realidade dos dias numa inexorável inércia.
É assombroso como de facto a história nos ensina tanto sobre a existência e sobre os homens. No desenrodilhar destes tantos anos e dias, por vezes penso que melhor será mesmo deixar-me enformar pelo sistema, ou deixar-me formatar com o tão-pouco, o tão-rude, o tão-fácil que nos vem de cima. É que assim, se não tiver mesmo de pensar, porque os sistemas o farão por mim, passarei a um estado quase impoluto, vivendo meus dias candidamente e sem esforços, para além dos que dedico, porque sim, ao meu ganha-pão, para depois morrer em vão, coisa que deve ser melhor do que experimentar a dor.
Tenho agora, no meu caminho, e ao fundo desta recta que se esvai, trás grandes possibilidades. Ou pronuncio o nome do meu país com pudor, dissimuladamente, ou num sussurro retirado e decoroso, ou fujo da realidade alienando-me ainda mais, ou abro de vez o meu grito aflito para tentar parar o tempo e rebobinar este filme que terá, para mim, de refazer-se inteiro.
É tempo, justamente, de rebobinar este filme e de relembrar que devemos ousar pensar por nós próprios. É tempo de rebobinar o filme e pensar na liberdade. É tempo de rebobinar o filme e viver a solidariedade, a fraternidade, a igualdade, a criatividade, o livre pensamento, a salubridade, a fantasia, a humanidade... É tempo de rebobinar o filme e repensar o silêncio, a solidão imposta, o medo e a alienação, porque é tempo de revolta e de renúncia. É tempo de repensar a vida e é tempo, acima de tudo, de fazer repensar a vida aos que vivem na insensatez do, e no sistema.