segunda-feira, novembro 26, 2007

ode à fadiga

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Se me perguntardes:
Porque andas fatigada?
Nem saberei responder.

Direi apenas que a vida fatiga tanto que perdes a própria medida do teu cansaço.
E que te cansas porque estás viva, sem propriamente te cansares dela.
É como que um feitiço, um mistério, uma sinistra assombração, essa de te sentires fatigada por nem saberes porquê.
E de facto não sabemos porque nos fatigamos porque não queremos fazer uma lista, um rol tremendo de situações que nos cansam, uma longa e fatigante lista de assuntos que nos enfadam, uma longínqua folha de texto com vários pontos de emoções que nos assolam e que nos esgotam, que gastam um bom punhado de células que morrem, a cada letra que escrevemos.
Porque andas fatigada?, perguntas tu.
Não saberei dizer-te, porque estou cansada demais para te dar respostas.
Certo é que chegarei ao porto, mesmo cansada, e que no porto encontrarei a âncora, mesmo que velha, e que lá ficarei presa, ó altíssimo, e que dela me cansarei, porque continuarei viva.

da orientação ou vocação para as artes VII

Nunca poderemos solver este mistério de artista genial. E nem o próprio criador conhecia a origem do seu engenho artístico desassossegando-se, não obstante, com essa sua característica de homem invulgar, facto que o levou à produção obsessiva de obras de arte inexcedíveis em qualidade. Na obra poética que nos legou, Miguel Ângelo demonstra esta sua preocupação, quando imagina ser a criação artística o fruto de um êxtase metafísico.

A especulação em torno da origem do génio artístico fascinou, de facto, imensos teóricos, ao longo da historiografia artística. Autores como Petrarca, Boccacio, Dante e, como vimos, o próprio Miguel Ângelo na Itália humanista, ou Francisco de Holanda, no Portugal de Quinhentos, entendiam a pintura como uma arte de origem divina e o pintor (como alter deus), pintando por divina força e imitando o homem à semelhança de Deus Eterno que foi, justamente, o primeiro pintor.

Durante muitos anos, particularmente durante e após o século XVI, os grandes artistas eram entendidos como uma espécie de santos, incarnando, nas suas obras e no seu próprio ser, a revelação divina. E esta visão do artista como fabricador de mundos não está, ainda hoje, longe dos nossos horizontes teóricos. Crê-se que o pintor possui uma capacidade para ver o mundo que está longe da nossa visão profana.

Já Francisco de Holanda entendia que o maior pintor não pinta aquilo que vê na natureza mas antes aquilo que vê com seus olhos interiores, aquilo que vê no seu entendimento solitário e quieto, aquilo que vê como uma aparição vinda do céu. Trata-se aqui de uma verdadeira teoria do génio, ou do pintor como um ser sagrado, descrita pelo próprio autor, numa (suposta) conversa com Miguel Ângelo e escrita em 1548: os de engenho já trazem do seu próprio trabalho, quando nascem, gosto e amor àquilo que são inclinados e que lhes pede seu génio [Francisco de Holanda, Diálogos de Roma, edição de José da Felicidade Alves, Livros Horizonte, Lisboa, 1984].

Trata-se aqui de uma visão neoplatónica e transcendentalista da criação artística que culminou na aberta classificação de alguns artistas como divinos (e nesta parentela de talentos evangélicos incluem-se o divino Miguel Ângelo, ou o divino Morales, na vizinha Espanha) mas que não está longe de alguns pressupostos que vieram a desenvolver-se, como a noção de alguns poderes inatos que criam no sujeito uma necessidade, ou uma inclinação para determinada tarefa cumprida através do génio.
Os estudos da psicologia e da sociologia abriram estes caminhos de verificação que se entendem como mais concertantes neste registo de pesquisa sobre a vocação ou orientação para as artes. Dos dotes transcendentais passaram então, e definitivamente, a aceitar-se outro género de factores, como o mundo das inclinações, ou das aptidões, ou das motivações que se inter-relacionam com o ambiente exterior enformante e que determinam uma solução mista entre a genética e o emolumento social.

Esta vontade de oferecer-se ao mundo não é comum a todos os indivíduos. Muitos há que querem, efectivamente, dar-se, expelir-se, explicar-se mas falta-lhes o que eles não conseguem encontrar na sua pesquisa de si e angustiam-se, frustram-se e fustigam-se, podendo depois enveredar por outro caminho de substituição. Mas outros indivíduos conseguem escapar a essa frustração dando lucidez às aptidões mais secretas e, mediante um árduo trabalho de sistematização, exercitando-se quase doentiamente, conseguem ultrapassar-se numa conquista do mundo e numa abertura efectiva de si, para o real. Resta depois outro cômputo de homens, feito daqueles que não sentem, nem nunca sentiram, qualquer necessidade de criação.

Numa desejada síntese, podemos então verificar existir uma vocação para as artes e uma vocação para a Arte no seu sentido mais absoluto e extremo. Qualquer uma dessas vocações, que possui uma origem marcadamente psicossocial, pode trabalhar-se ou, por outro lado, pode ficar encoberta no caminho da vida dos sujeitos que a possuem. Se essa vocação conseguir despertar no sujeito, ele deve sistematizar essa inclinação através do estudo e do exercício mas, por outro lado, ela pode existir, ou persistir silenciosa, apagada na vontade consciente de verter-se e tem, nessa altura, de procurar-se, na orientação, para dar-se a conhecer.

Não obstante todas estas sugestões, sem o constrangimento para completar-se o mundo e sem o talento para o voo por sobre os homens, não consegue fazer-se um artista.

Coimbra 3 de Maio de 2001.

sexta-feira, novembro 23, 2007

com um brilho nos olhos



há pouco menos de um ano, o meu pequeno Afonso, então (e ainda) com 4 anos, participou na sua primeira experiência como ilustrador de livros, em conjunto com os seus colegas de escola. O livro ficou muito bem e ele contentíssimo, claro, pensando que escrevera um livro de histórias inteirinho (:fui eu que fiz!).

Amanhã é a apresentação desse interessante volume titulado "descobre as plantas!" (Museu da Ciência, UC, Coimbra) e lá vamos nós, para brindar com sumo fresco e sorrisos ardentes de uma paixão sem limites, é sua primeira participação numa publicação em livro ilustrado com cores benovolentes!

da orientação ou vocação para as artes VI

Como historiadora, podia arrolar comprovadas famílias de artistas, apontar nomes e obras, de pais com filhos arquitectos, escultores, pintores e músicos, para depois verificar como a orientação e a herança genética dos criadores foi magnânima no processo de carreira individual dos descendentes. De facto existiram, e ainda existem, inúmeras famílias de artistas. E que quer isto significar? Que este género de aptidão circula nos genes dos indivíduos, ou que o ambiente familiar determinou a vocação em esteira para as artes? Poderemos nós conjecturar que a laboração nas artes surgiu num determinado jovem porque a família o coagiu a enveredar por esse caminho de vida através da estimulação de determinadas capacidades?

Sabe-se que existe uma grande correlação entre os factores ambientais e sociais, e a hereditariedade, pelo menos ao nível de influência no coeficiente de inteligência e no comportamento, entre outras áreas mas, e ao nível do desenvolvimento da capacidade para produção de obras de arte?

A historiografia da arte desenvolve, se bem que desanexada dos propósitos objectivos da psicologia, uma metodologia que pode ajudar-nos nesta apreciação já que, de uma forma geral, quando pretende fazer-se a biografia de um artista, procuram-se os motivos para o desenvolvimento das aptidões artísticas verificadas no indivíduo em apreço. Pesquisam-se primeiramente os parentes mais chegados, recuando-se depois, se necessário for, a gerações anteriores. Procuram conhecer-se as actividades, a cultura, o meio económico e social e as inclinações desses sujeitos, de forma a entender-se mais capazmente esse agente de cultura em causa. Mas o historiador não pesquisa estas fontes para demonstrar as componentes genéticas do artista, fazendo-o, em parte, por aferição subjectiva, e por outro lado para integrar o sujeito num lugar e num espaço sociocultural enformante, que também é o seu lugar na história.

Numa considerável amostra de sujeitos pesquisados ao longo dos vários séculos precedentes, conclui-se que, de facto, o artista biografado possuía pelo menos um parente com demonstrada tendência para as artes —sem que, todavia, esse parente tenha, necessariamente, de possuir inegáveis talentos artísticos [este fenómeno da esteira familiar de artistas compromete-se, em determinadas conjunturas históricas, com motivos de razão prática e social, mais do que com processos estritamente biológicos, ou psicológicos. Durante a Idade Moderna, era comum que o filho, ou que um apaniguado, seguisse o ofício já enraizado no seu núcleo social mais chegado por comprometimento económico e social. Exemplos radicais como os que podem verificar-se para a época moderna portuguesa dos arquitectos Arruda, da extensa família artística dos Frias, dos parentes Diogo Pires-o-Velho e o-Moço, da família Ruão, etc., não constituem excepção, e fazem parte de um largo cômputo extensível no tempo e no espaço, porque este fenómeno verificou-se um pouco por toda a Europa coeva].

Mas se encontramos infinitas esteiras de descendência artística, também conhecemos outros tantos casos que nos permitem duvidar que estamos perante uma regra: o famosíssimo pintor renascentista Piero della Francesca era filho de um sapateiro, e Botticelli de um curtidor de peles.

Vasari, um artista e teórico das artes da Itália quinhentista escreveu, na sua Vida dos Pintores, publicada em 1550, que o mestre de Giotto, chamado Cimabue, era oriundo de uma nobre família florentina. O seu pai enviara-o a um frade seu parente que ensinava noviços em Santa Maria Novella, mas o jovem Cimabue interessou-se mais pelo trabalho dos artistas que ali pintavam na capela dos Gondi, abandonando o estudo para passar o dia inteiro a ver labutar os referidos pintores, pelo que seu pai, bem como os ditos pintores, verificando que ele tinha aptidões para a pintura, acabou por ceder à sua vocação, tendo Cimabue, ajudado pela sua natureza muito inclinada para a arte, ultrapassado muitíssimo o estilo da sua época. Outro caso conhecido é o do próprio Giotto que, sendo pastor, pintava ovelhas muito ao natural nas pedras dos pastos da Toscana, em Vespignano, tornando-se depois num dos mais famosos artistas do gótico italiano.

Apesar de tudo, a historiografia da arte também permite concluir que de facto existe uma forte aclimatação fraternal que influencia grandemente o desenvolvimento das aptidões futuras de um, ou de outro artista de maior ou menor fortuna. Podemos imaginar o exemplo, comum ao longo da história, do pequeno filho nascido de uma família de lavradores e colocado, ainda muito jovem, na oficina de um artista para aprender o ofício, no cumprimento de uma aspiração paterna que queria ver o filho vingar, social e economicamente, no mundo arredado da lavoura.

Durante um largo período da história, esta metodologia de ensino e de ingresso no mundo das artes era radical, já que desde a Idade Média mais longínqua até ao dealbar da contemporaneidade, nalguns lugares da Europa recenseada, a criança era literalmente posta em casa do seu mestre, raras vezes era visitada pelo pai ou por outro parente, e ficava em permanente contacto com as lides familiares e artísticas do seu mestre, contactando com as obras em produção, ou com os modelos e com livros de ensinança e com o grupo de encomendantes e de mecenas. A criança era afastada do ambiente familiar original e era, certamente, muito influenciada pelo novo mundo do seu mestre, alterando-lhe, de certa forma, grande parte das motivações primeiras e do seu comportamento. Não obstante, e independentemente da fortuna deste jovem aprendiz, não podemos contabilizar o seu grau de aptidão inicial e posterior para o desempenho da arte.

Num exemplo mais concreto temos o caso, muito divulgado pela da especulação romântica, que gravita em torno da origem do talento de Miguel Ângelo Buonarroti. Discute-se enormemente sobre a sua educação, sobre o facto de ter sido colocado, ainda menino, num lar situado nas cercanias de uma enorme pedreira, e sob a guarda de um canteiro, facto que lhe terá desenvolvido o gosto pela roca, o gosto pela descoberta das formas ocultas nas pedrarias, o gosto pelo pó da pedra e aquela visão do mundo sui generis, que foi a deste magnífico e inigualável homem das artes. Aliás, o próprio Miguel Ângelo pronunciou-se sobre esta afortunada marca de vida quando, em conversa com Vasari, lhe confessou que se tivesse sido criado noutro lugar, longe do pó da pedra alva, que para ele era tão vital como o leite de sua ama, nunca teria enveredado pela escultura...

Ora, se ao invés da sua educação em casa da ama, Miguel Ângelo tivesse sido acompanhado pela sua família de classe média e burocrata da Toscana renascentista, como teria ele desenvolvido aquela apetência tremenda pela escultura? Aliás, para a família Buonarroti, o desempenho as artes, que então eram entendidas como manuais, constituía uma desonra vergonhosa.

Qual foi então o papel do seu ingénium pessoal, ou da orientação, promovida no convívio de nascença com a pedra, no contacto com Domenico Ghirlandaio ou com Granacci, seus primeiros e superadíssimos mestres, no processo do desenvolvimento do seu talento? Muitos biógrafos de Miguel Ângelo acreditam apenas no seu auto-didatismo, estendendo-se o seu talento evangélico no contacto fecundo com as obras de arte, e com a filosofia da casa de acolhimento durante o final da infância e no dealbar da adolescência, na corte dos poderosos Medici.

terça-feira, novembro 20, 2007

a nico






When I remember what to say
When I remember what to say
You will know me again
And you forget to answer

When I remember what to say
When I remember what to say
You will know me again
And you forget to answer

You seem not to be listening
You seem not to be listening
The high tide is taking everything
And you forget to answer

When I remember what to say
When I remember what to say
You will know me again
And you forget to answer


Nico, you forget to answer

Yeah...

Matthew Dear "Don and Sherri"

quinta-feira, novembro 15, 2007

tradução electrónica sénior

não vendo eu o lugar certo
para colocar o “A” de sentido e de caminho e de fluxo
encontro estranhos feitios para o depositar
em palavras sem o “A” de ânsia, azia e solidão

do negro evaporo o “S”
de solicitude, de desvelo, de desejo, de salvação.

para arrancar o “N” de noz
tomaremos ganas de outras letras
das letras que ficam sós…
as sobejantes
Oz


Obrigada por preferir este tradutor, e
volte sempre

porque sim

Siouxie and The Banshees Dazzle

quarta-feira, novembro 14, 2007

que vergonha



Jacques de Gleyn o Velho, Vanitas, 1603 (cf. www.metmuseum.org)



***



o Museu Nacional de Arte Antiga e o Nacional de Arqueologia encerram salas de exposições por falta de pessoal vigilante (cf. nótícia)... certamente seguir-se-ão outros e, certamente, outras falhas podem fazer colapsar um sistema que já é débil, e que se debate em lutas (por estas e por outras, mas sempre por falta daquilo que faz mover os mundos...) de forma a conseguir manter-se de pé. num só pé, diria.

este não é o único problema com se altercam os grandes, e os menos grandes museus portugueses. também não é um problema exclusivo da rede de museus nacional, mas trata-se de uma questão mais abrangente, porque envolve a teia imensa dos bens patrimoniais imóveis, bem como os recheios móveis, praticamente todos por inventariar. se abrirmos bem os nossos olhos conseguimos ver que as paróquias, as capelas, os mosteiros e os conventos que povoam os nosso país se escondem, e escondem os seus tesouros feitos também de esculturas e de pinturas guardadas, porque abrindo-os, podem perde-los de vista. e se num dia ainda temos a sorte de poder admirar uma esculturinha devocional pousada há anos numa peanha algures no interior de uma capela de porta aberta, no dia seguinte ela desprendeu-se do lugar e eclipsou-se. por isso quem vem a portugal, ao país velhíssimo da beira europeia voltada ao mar, para visitar o seu vasto património religioso não pode entrar, ficando-se à beira das portas fechadas às sete chaves.

de facto, este país cuidou sempre pouco do seu legado cultural e, especialmente, da sua tão rica herança patrimonial. os poucos cidadãos que deram, e os que ainda dão, porque ainda os há, as suas vidas por esta causa desmerecida constituem-se como uma casta quase delirante, entendida como um bando de alienígenas que pouco fazem pelo progresso. e esbracejam sem poder fazer mover os ares.

os dias que correm deveriam até ser diferentes, depois da unesco ter considerado em portugal, e por escrito, que as artes e o património são valores imprescindíveis para a construção de cidadãos de facto, e de corpo inteiro, aliciando ao estudo para a sua compreensão e valorização, com consequente preservação. mas estas directivas levaram à abertura de novas licenciaturas em artes, e no seu estudo generalizado, sem ser medida a justa entrega desses novos formados à realidade.

às vezes chego mesmo a sentir vergonha por ter nascido no meio deste canto terráqueo. as situações inacreditáveis a que assisitimos nesta aresta quebrada do mundo espelham um conformismo tão indolente que chega a ser arrepiante, e que é altamente desmotivador. e o que arrepia ainda mais é mesmo este estado de espírito de desapego pela memória. trata-se de uma memória selectiva, a nossa, ainda presa aos grandes feitos, mas que desdenha do material que remanesce, o material vivo e sólido que marca e que testemunha vidas, e que morre em outras vidas se não tratarmos dele. o que portugal preserva são algumas estórias de homens magníficos há muito desaparecidos, das imensas e complexas teias familiares que povoam a nossa história, gosta ainda muito das tramas políticas que se geraram, ou que se degeneraram, dos feitos esventrando mares, e de guerras mais ou menos afortunadas, coisas de encher os olhos quando não querem ver. mas ao mesmo tempo, portugal desdenha subtilmente o que esses e outros homens construíram de mais pequeno em tamanhos. afinal, vivemos a mesma agonia cultural, embora com renovadas formas, a que estivemos sujeitos durante anos, reclamando tempos novos de liberdade e de democracia.

afinal, esta eresta do mundo que acaba a europa para encontrar os altos mares, não é um lugar de fascínios e de paixões, porque se faz de homens ásperos e indiferentes e tão cheios de soberba. reina neste velho pedação de chão um desamor tão agreste que faz saltar dos olhos, daqueles tais poucos sujeitos, delirantes, os que esbracejam sem conseguir fazer mover os ares, uma quieta e silenciosa gota de água insalubre, porque eles sabem que não é o fumo que comanda a vida.

terça-feira, novembro 13, 2007

Quem falou em conflito femuro-acetabular...?

devo continuar o caminho sem abrandar o passo,
sem aumentar o peso para me deixar ir com os dias,
imparável e sem sentir a dor, porque ela é perfeitamente abominável num quadro de tempos mornos,
antes do fim,
ou ainda em auroras de vida... espero.

E se me falardes em ossos, cartilagens e articulações, fala baixinho,
para que eu não consiga ouvir a tua voz,
ó altíssimo,
porque cá de baixo, onde ainda estou, só quero ver e sentir coisas bonitas.

quinta-feira, novembro 08, 2007

das outras ciências






«Primatas em Congresso Ibérico», in Diário das Beiras, Coimbra, 17-XI-2007, p. 17.

Este título, que anuncia um congresso de primatas em Peniche, faz-me pensar que deve ser um encontro científico no mínimo sui generis. Será que ainda vou a tempo de inscrever-me no evento?

quarta-feira, novembro 07, 2007

Tintoretto, de Itália a Santo Tirso

Pode ler-se aqui o artigo publicado sobre o achamento de uma Adoração dos Magos, de Jacopo Tintoretto, no Mosteiro beneditino de Singeverga, Santo Tirso, Portugal.

terça-feira, novembro 06, 2007

Persepolis



De Marjane Satrapi, Persepolis, 2 vols. Pantheon, 2003.

Em cinema desde Junho (para cá virá depois, creio) esta é uma, ou a história de Satrapi que leio muito devagarinho desde o fim do Verão, porque tenho medo de chegar ao fim.
À Diva, com um abraço de saudades,
Carla

Life 2.0


Life 2.0
Colocado por manukeo

da orientação ou vocação para as artes V

Nem todos os indivíduos possuem a capacidade de ver o mundo nas suas entrelinhas, de procurar nele aquilo que não há. Nem todos os sujeitos se desdobram em curiosidade inexcedível, e nem todos conseguem transformar as suas imagens interiores em expressão artística. Não se trata aqui de domínio da técnica, no seu entendimento mais amplo mas, antes de tudo, de aptidão para o voo, de aptidão para o domínio do sonho, de aptidão para o descobrimento da natureza e do Homem, de aptidão para o domínio do Ser na sua essência.

No decurso do processo criativo, não há dúvida de que o artista tem de conseguir deixar de lado o poder abrasivo da razão, para dar asas à intuição e à sensibilidade, entendidas como matrizes de laboração imprescindíveis. Veja-se o exemplo que um pintor que, ao enfrentar o branco, o preenche com uma série de pontos, de linhas e de formas que, paulatinamente, vão dando corpo ao desenho que materializa a imagem que o autor pretende conceber. Neste movimento de materialização —ou, se quisermos, de objectivação dos conteúdos subjectivos—, cada linha também vai determinando o caminho das que se lhe seguem, podendo alterar substancialmente a configuração primeira que, por vezes, chega a exceder a ideia inicial do autor. Um plano de obra ideado não é o seu resultado final e, não raras vezes, a própria obra altera-se durante o seu processo de natural desenvolvimento. É que a forma pode criar novas formas, recriar a própria imagem interior do artista, e dar-se como outra e completamente nova configuração.

Ninguém sabe o que leva o artista a escolher determinado caminho de execução em detrimento das incomensuráveis possibilidades de escolha, ou seja, ninguém pode explicar as opções que o artista toma, no decurso da sua criação, ou da explanação de determinada Ideia, que tem de encorpar-se para dar-se a conhecer. Neste processo, que lugar ocupará o acaso, como fonte ininterrupta de sugestões e de caminhos? Sabe-se que o processo criativo carrega em si (e sobre si) inúmeras hesitações, avanços e recuos e, também por este motivo, um constante desatino e ansiedade que, por sua vez, fazem avançar o discurso que se realiza.

Nesta sequência vertiginosa, por vezes tão distante de qualquer discernimento lógico, caberá apenas ao autor saber qual será a sequência de trabalho adequada, ou caberá à própria pintura saber que lugar ocupará a nova tinta? Competirá apenas ao artista entender quando deve terminar a sua obra, ou dir-lhe-á a obra que se resolveu, assumindo-se na sua totalidade? O que sabemos é que cumpre ao pintor escolher, mais ou menos racionalmente, emotivamente, impulsivamente, ou intuitivamente, o ritmo e a velocidade das suas impressões, o peso da mão a marcar o texto, ou a espessura das camadas de tinta. E que mistério é este senão o verdadeiro caminho da intuição em plena liberdade de acção, onde o diálogo entre a criação e o criador consubstancia um lugar incomum.

Um indivíduo criativo é, como já se disse, um indivíduo curioso, e esta curiosidade vai alimentar-lhe a criatividade, gerando-se assim uma espiral ininterrupta de causas e de efeitos. Será por isso que o artista —entendido como um ser realmente excepcional e único, dotado de um talento evangélico para a visão global da realidade, ou de um talento evangélico para as artes—, é um ser permanentemente insatisfeito, tocando a genialidade à custa de uma interminável inquietação interior?

Tendencialmente, ao inibir-se a curiosidade numa criança, espartilha-se a sua liberdade de procura de si e do mundo, limitando-se o desenvolvimento do seu impulso epistemológico. Este impedimento, para além de corromper a tendência da criança para o conhecimento, também lhe tolhe a criatividade artística e científica. O livre exercício da curiosidade é, também, e neste caso, o livre exercício da criatividade.

Orientar um sujeito para as artes é, então, estimular-lhe desde cedo o exercício da curiosidade e da criatividade? É estimular o sujeito para o desembaraço cerebral na construção de imagens —entendendo-se aqui o conceito imagem como um filme cerebral ou, como uma ressonância interior do indivíduo? É sabido que esta estimulação gera, necessariamente, uma grande desenvoltura epistemológica, e que pode facilitar o caminho para o desenvolvimento criativo, na sua concepção mais abrangente mas, todavia, não pode comprovar-se que esta estimulação resulte em ganhos efectivos no terreno da vocação para a realização de obras de arte na verdadeira acepção da palavra.

Sabe-se que, justamente, os homens não são todos iguais em capacidades, em impulsos, em aptidões, em tendências e em gostos. Cada indivíduo é um depositário determinado desde o seu primeiro dia uterino, consubstanciando-se como um único ser biológico que depois, desenvolvendo-se em determinado contexto conjuntural, vai adquirindo outras e tão múltiplas características que mais ainda o fazem divergir do restante emolumento psicossocial.

As aptidões e as capacidades, na sua significação mais ampla, variam de indivíduo para indivíduo. São determinantes que vão condicionar as suas reacções a estímulos, as suas actividades, as suas carências, o seu comportamento e até mesmo o seu sistema de valores, as emoções, a produtividade, etc.. Mas a existência de uma aptidão para a música, por exemplo, não faz do indivíduo um compositor emérito, podendo fazer dele um músico, se lhe estimularmos, através do ensino da música e do exercício, essa mesma capacidade. À aptidão deste indivíduo, devem então juntar-se a aprendizagem e a sistematização, ou o exercício, mas, ainda assim, ninguém garante que este músico consiga compor, ou produzir obras de arte inexcedíveis. A avaliação da estrutura e das capacidades dos indivíduos pode levar-nos a predizer sobre os seus comportamentos futuros e sobre a possibilidade de aquisição de determinadas habilidades. Mas, ainda assim, ficamos sem saber como surgem as habilidades nos homens. Certamente que por condicionalismos externos e por condicionalismos genéticos mas não podemos discernir, com facilidade, até que ponto somos mais determinados pelas condições ambientais, ou por factores estritamente imanentes.

Numa justa conclusão, devemos dizer que apenas sabemos que as capacidades individuais constituem o resultado de uma combinação inter-relacional de factores inatos e ambientais que se misturam sem grande rigor matemático.
Dizer que um artista se faz não nos basta, porque julgamos que um artista não se faz do nada. Far-se-á ele se lhe faltar aquilo que o pode distinguir em género e em aptidão, em raciocínio, em intuição, em compreensão do espaço, em visão do mundo, em necessidade de completar o real e em consciência? E como podemos nós, do nada, fazer o pão? É que apesar de comummente ser defendido que o filho de um peixe possui qualidades que o fazem saber nadar, nem sempre é garantido que esse descendente consiga abraçar os oceanos, ondular eficazmente até ao termo da idade, podendo morrer pela boca, ou viajar apenas em pequenos rios, ou tender a embaraçar-se nas ardilosas redes que o esperam.